Anúncios

Um episódio de El Niño canônico ou clássico, de grande impacto no clima mundial, deve se instalar mais tarde neste ano, começando entre o outono e o inverno, mas já antes deve se instalar um precursor conhecido na climatologia como El Niño Costeiro, prevê a MetSul Meteorologia.

El Niño Costeiro

El Niño Costeiro atuou em 2023 | NASA/ARQUIVO

Diferentemente do El Niño clássico, que ocorre em grande parte da faixa equatorial do Oceano Pacífico, o denominado El Niño costeiro acontece nas águas superficiais junto aos litorais do Peru e do Equador.

O Pacífico Equatorial Leste nos litorais do Peru e do Equador deve passar nas próximas semanas, ao longo deste mês de fevereiro e em março, por um rápido aquecimento das águas superficiais com alta probabilidade de um evento de El Niño Costeiro que pode se manifestar ainda neste verão.

Na chamada região Niño 1+2, que mede a temperatura do mar na costa do Peru e do Equador, mas não é usada para designar se há La Niña ou El Niño em sua forma clássica, a anomalia informada no último boletim da agência de clima dos Estados Unidos (NOAA) foi de +0,1ºC.

Esse valor é de quase neutralidade, mas a tendência é que no decorrer das próximas semanas esta parte do Oceano Pacífico Equatorial passe por um significativo processo de aquecimento e anomalias típicas de El Niño Costeiro sejam atingidas, sobretudo em março.

O modelo NNME, que reúne dados de modelos norte-americanos e canadenses de clima, sinaliza águas mais quentes do que o normal com traços de El Niño Costeiro para março nos litorais peruano e equatoriano.

METSUL

O último informe da ENFEN, a Comissão Multisetorial de Estudo do Fenômeno El Niño, do governo peruano, antecipa o desenvolvimento de um cenário quente nas águas do litoral peruano.

A informe destaca “Vigilância de El Niño Costeiro” e que a partir de março “passam a ser mais prováveis condições quentes fracas no litoral do Pacífico, com persistência estimada ao menos até outubro do mesmo ano”.

O que é o El Niño Costeiro e como se diferencia do clássico

O El Niño Costeiro, é ​ evento oceânico-atmosférico que consiste no aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial nas proximidades das costas sul-americanas, que implica que afeta o clima de países como Peru, Equador e às vezes no Chile. É um fenômeno local que não afeta todo o clima mundial.

É diferente do El Niño na sua forma clássica ou canônica, que é fenômeno climático global de maior dimensão e que consiste no aquecimento anômalo do Pacífico Central e Leste na zona equatorial. Este El Niño clássico é que pode se instalar nos próximos meses. O que agora se instala na costa peruana é o El Niño local.

O intenso El Niño costeiro de 2017 trouxe o maior desastre no Peru desde o El Niño poderoso de 1997 e 1998. As chuvas se intensificaram a partir do final de janeiro de 2017 e seu maior impacto foi no final de março, durando até abril. No Peru, foram registrados 101 mortos, 353 feridos, 19 desaparecidos, 141 mil desabrigados e quase um milhão de afetados. O Equador teve 16 mortes.

TYPE/GOVERNO DO PERU

TYPE/GOVERNO DO PERU

No Peru, as chuvas aumentaram em todo o país, produzindo chuvas torrenciais e tempestades elétricas que causaram transbordamentos, inundações, deslizamentos de terra, nevascas ou granizo nas montanhas andinas e severos impactos nas costeiras de Tumbes, Piura, Lambayeque, La Libertad, Ancash e Lima. No Equador, as províncias de El Oro, Loja, Azuay e a cidade de Guayaquil foram especialmente afetadas, produzindo chuvas 5 vezes superiores ao normal.

O evento de El Niño costeiro de 2023 teve seu gatilho em um evento da Oscilação de Madden-Julian, uma oscilação associada à instabilidade que circunda o globo pelos trópicos a cada 30 a 60 dias, que teve a maior magnitude na fase 8 (do Hemisfério Ocidental) em décadas. Os valores diários de amplitude da OMJ entre os dias 8 e 12 de março daquele ano foram os mais altos já observados, somente perdendo para 16 e 17 de março de 2015, precedendo o Super El Niño daquele ano.

Ademais, houve um evento chamado de Westerly Wind Burst (WWB), ou numa tradução livre de Estouro de Vento de Oeste, que colaborou para que águas mais quentes atingissem a superfície do oceano, gerando o súbito e acelerado aquecimento do mar na costa peruana. Este tipo de ocorrência (WWB) costuma ser a largada de episódios de El Niño na sua forma clássica e de repercussão global.

Um “estouro de vento de Oeste” é um fenômeno comumente associado a eventos de El Niño, em que os típicos ventos alísios de Leste a Oeste ao longo do Pacífico equatorial mudam para Oeste a Leste. A literatura define como ventos sustentados de ao menos 25 km/h de Oeste durante período de 5 a 20 dias.

Chance de reflexos no Sul do Brasil

Embora não receba grande atenção por aqui, eventos de El Niño costeiro impactam o Sul do Brasil. No verão de 2017, o Pacífico Central estava mais frio do que a média e o grande temor entre os produtores do Sul do país era de um verão de estiagem, mas na virada do ano se iniciou na costa peruana um surpreendente evento de El Niño costeiro que resultou em um verão mais chuvoso com uma grande safra.

Uma vez que a condição do Pacífico Central no momento é de neutralidade, sem Niño ou Niña, e neutralidade é não raro confundida com normalidade, muitas previsões indicam um outono de condições próximas das médias históricas, mas no entendimento da MetSul o evento de El Niño costeiro tem potencial para impactar chuva e temperatura na próxima estação.

Será a partir da segunda metade do outono e no inverno que o aquecimento do Pacífico na forma clássica do El Niño terá os seus reflexos mais sentidos e potencializados no Sul do Brasil com episódios de precipitação mais volumosa e talvez até excessivos. Durante o inverno e a primavera, desta vez pelo El Niño clássico, projeta-se excesso de chuva e numerosos episódios de cheias de rios e enchentes.

Anúncios