O episódio de El Niño Costeiro em curso com superaquecimento das águas superficiais nos litorais do Peru e do Equador se intensifica neste mês de março e já iguala valores de março de 2023 com efeitos no clima dos dois países, que sofrem com inundações e deslizamentos.

El Niño Costeiro se intensifica nos litorais do Peru e Equador | NASA
De acordo com o último boletim da NOAA, a agência de tempo e clima do governo dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 1+2 é de +1,5ºC.
Esta região mede a temperatura do mar nos litorais do Peru e do Equador, onde se produz o chamado El Niño Costeiro. A anomalia positiva de temperatura do mar nesta área mais a Leste do Pacífico Equatorial deu um salto de uma semana para a outra, uma vez que na semana anterior era de +0,9ºC.
O valor atual da anomalia de temperatura da superfície do mar de +1,5ºC iguala o que se observava nesta mesma época do ano em março de 2023, antecedendo a instalação de um episódio muito forte do El Niño clássico ou canônico.
O valor atual, no entanto, está abaixo do pico nesta mesma época de +2,3ºC, anotado na metade de março de 2017 durante um episódio de El Niño Costeiro há nove anos. Ocorre que naquele ano o aquecimento não se sustentou nos meses seguintes com o resfriamento das águas nos litorais peruano e equatoriano.
Não é o que vai ocorrer agora em 2026. A tendência é de o Pacífico seguir aquecendo na chamada região Niño 1+2 junto à costa da América do Sul com o aquecimento se estendendo à praticamente toda a faixa equatorial, o que vai levar à instalação de um episódio do denominado El Niño global ou canônico nos próximos meses.
El Niño Costeiro deixa mais da metade do Peru em emergência por chuva
Mais da metade do território do Peru enfrenta uma situação de emergência climática provocada pelas fortes chuvas associadas ao fenômeno conhecido como El Niño Costeiro. O governo peruano informou que 52% dos distritos do país estão em estado de emergência devido aos impactos das precipitações intensas que vêm ocorrendo nas últimas semanas.
As chuvas têm provocado cheias de rios, inundações, deslizamentos de terra e danos à infraestrutura, afetando milhares de famílias em diferentes regiões do país. Estradas foram interrompidas, casas foram danificadas e comunidades inteiras enfrentam dificuldades de acesso a serviços básicos.
O anúncio foi feito no Centro de Operações de Emergência Nacional. Segundo as autoridades peruanas, a dimensão da crise é significativa e exige resposta coordenada entre o governo central, autoridades regionais e municípios para atender as populações atingidas.

Chuva intensa associada ao El Niño Costeiro causou estragos na cidade peruana de Arequipa | DIEGO RAMOS/AFP/METSUL
As regiões mais afetadas pelas chuvas incluem Tumbes, Piura, Lambayeque, Cajamarca, Arequipa, Ayacucho e Madre de Dios. Nessas áreas foram registrados transbordamentos de rios, alagamentos e destruição de moradias, com impacto tanto em áreas urbanas quanto rurais.
Um dos episódios mais graves ocorreu no distrito de Ayna, na região de Ayacucho, onde o rio Sankirhuato transbordou e invadiu casas e ruas. Equipes do Exército peruano e da polícia foram mobilizadas para auxiliar na limpeza de áreas inundadas e prestar apoio às famílias atingidas.
O governo informou que mais de nove toneladas de ajuda humanitária já foram enviadas às áreas afetadas. Também foram instaladas cerca de 20 estruturas de abrigo temporário para acolher pessoas que perderam suas casas ou foram diretamente atingidas pelas enchentes.
Equipes do Ministério da Saúde também foram mobilizadas, com brigadistas, ambulâncias e unidades médicas móveis para prestar atendimento emergencial e evitar a disseminação de doenças em áreas inundadas.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Defesa Civil do Peru, as chuvas registradas desde dezembro já causaram ao menos 92 mortes e mais de 23 mil pessoas desabrigadas. As autoridades continuam monitorando a situação enquanto novas precipitações seguem atingindo diferentes regiões do país.
Emergência nacional no Equador
O governo do Equador declarou estado de emergência nacional por 60 dias devido aos impactos da atual estação chuvosa, que já provocou mais de 1.600 eventos extremos em diferentes regiões do país.
A decisão foi anunciada pela Secretaria Nacional de Gestão de Riscos do Equador após um rápido aumento de ocorrências associadas às chuvas, como inundações e deslizamentos de terra. O objetivo da medida é mobilizar recursos e ampliar a coordenação entre órgãos do governo para responder à crise.
De acordo com dados oficiais, 1.662 eventos adversos ligados às chuvas foram registrados entre 1º de janeiro e 12 de março de 2026. As ocorrências afetaram 24 províncias, 190 cantões e 590 paróquias, mostrando que praticamente todo o território equatoriano sofreu impactos da temporada chuvosa.
As inundações representam cerca de 37,8% dos eventos registrados, enquanto deslizamentos de terra correspondem a 36,8%. Episódios de chuva intensa também aparecem entre as ocorrências mais frequentes.
Entre as províncias mais afetadas estão Guayas, El Oro, Los Ríos, Esmeraldas, Manabí, Santa Elena, Loja e Chimborazo, onde as chuvas causaram danos a moradias, infraestrutura pública, sistemas produtivos e serviços básicos.
Relatórios técnicos indicam que o cenário de risco se intensificou rapidamente. Em apenas 12 dias houve aumento de 56% no número de eventos climáticos, enquanto o impacto sobre a população cresceu 154%.
Com a emergência nacional, o governo poderá acelerar contratações públicas, liberar recursos extraordinários e ampliar as operações de resposta, incluindo evacuação de áreas de risco, instalação de abrigos temporários e assistência humanitária às comunidades afetadas.
Entenda a diferença entre o El Niño Costeiro e o El Niño Clássico
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, mas pode se manifestar de formas distintas. A principal diferença entre o El Niño clássico, também chamado de canônico, e o El Niño costeiro está onde ocorre o aquecimento das águas e nos impactos associados.
O El Niño clássico ocorre quando há um aquecimento persistente e de grande escala nas águas do Pacífico central e leste, ao longo da faixa equatorial. Esse aquecimento altera de forma significativa a circulação atmosférica tropical, enfraquece os ventos alísios e desloca áreas de chuva para regiões onde normalmente o tempo seria mais seco.
Trata-se de um fenômeno de alcance global, que pode durar vários meses e influenciar o clima em diferentes continentes. No Brasil, por exemplo, o padrão mais comum durante um El Niño clássico é o aumento da chuva no Sul e períodos mais secos em partes do Norte e do Nordeste, além de temperaturas médias mais elevadas.

AFP
Já o El Niño costeiro, que começa agora, é um evento mais restrito geograficamente. O aquecimento das águas se concentra principalmente junto à costa do Peru e do Equador, sem necessariamente envolver o Pacífico central de forma significativa. Por isso, seus efeitos atmosféricos tendem a ser mais regionais e menos abrangentes globalmente.
Então, de forma simples e para entender, enquanto o El Niño canônico é um fenômeno oceânico-atmosférico de grande escala com repercussões globais, o El Niño costeiro é mais localizado, com efeitos concentrados na costa Oeste da América do Sul e menor influência sobre o clima mundial.
