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O fenômeno conhecido como El Niño Costeiro começou na costa Oeste da América do Sul com rápido e intenso aquecimento das águas superficiais nos litorais do Peru e do Equador, o que confirma previsão feita pela MetSul Meteorologia que o evento chegaria mais cedo do que se previa na região.

Mapa de anomalia de temperatura da superfície do mar do começo desta semana mostra um grande aquecimento das águas nos litorais do Peru e do Equador com o El Niño Costeiro

Mapa de anomalia de temperatura da superfície do mar do começo desta semana mostra um grande aquecimento das águas nos litorais do Peru e do Equador | NASA

O Peru ativou alertas climáticos após a confirmação do início do Niño Costeiro de 2026. A diretora de Meteorologia do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia do Peru (Senamhi) informou que, desde fevereiro, há aumento sustentado da temperatura da superfície do mar ao longo do litoral peruano, atendendo aos critérios técnicos que caracterizam o fenômeno.

De acordo com a Comissão Multisetorial de Estudo Nacional do Fenômeno El Niño (ENFEN), o evento pode se estender ao menos até novembro deste ano e atingir a sua intensidade maior nos próximos meseas.

Segundo a comissão peruana, há possibilidade de que atinja intensidade moderada, mas para a MetSul Meteorologia a tendência é que atinja intensidade muito forte no decorrer do outono.

O último boletim da NOAA do estado do Pacífico, divulgado ontem, apontou anomalia de temperatura da superfície do mar de +1,2ºC na denominada região Niño 1+2, que monitora os litorais peruano e equatoriano, onde ocorre o El Niño costeiro.

Em comparação, na semana anterior, esta mesma região do Pacífico apresentava uma anomalia de temperatura da superfície do mar de +0,7ºC, ou seja, em apenas uma semana aqueceu 0,5ºC, o que é significativo.

O último episódio de El Niño Costeiro prolongado se deu em 2023 e teve início nesta mesma época do ano, precedendo o episódio clássico de Super El Niño de 2023/2024. Naquele ano, o pico do El Niño Costeiro se deu em julho com anomalia de +3,5ºC.

Atenção que El Niño Costeiro não é o El Niño Clássico

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, mas pode se manifestar de formas distintas. A principal diferença entre o El Niño clássico, também chamado de canônico, e o El Niño costeiro está onde ocorre o aquecimento das águas e nos impactos associados.

O El Niño clássico ocorre quando há um aquecimento persistente e de grande escala nas águas do Pacífico central e leste, ao longo da faixa equatorial. Esse aquecimento altera de forma significativa a circulação atmosférica tropical, enfraquece os ventos alísios e desloca áreas de chuva para regiões onde normalmente o tempo seria mais seco.

Trata-se de um fenômeno de alcance global, que pode durar vários meses e influenciar o clima em diferentes continentes. No Brasil, por exemplo, o padrão mais comum durante um El Niño clássico é o aumento da chuva no Sul e períodos mais secos em partes do Norte e do Nordeste, além de temperaturas médias mais elevadas.

Já o El Niño costeiro, que começa agora, é um evento mais restrito geograficamente. O aquecimento das águas se concentra principalmente junto à costa do Peru e do Equador, sem necessariamente envolver o Pacífico central de forma significativa. Por isso, seus efeitos atmosféricos tendem a ser mais regionais e menos abrangentes globalmente.

Então, de forma simples e para entender, enquanto o El Niño canônico é um fenômeno oceânico-atmosférico de grande escala com repercussões globais, o El Niño costeiro é mais localizado, com efeitos concentrados na costa Oeste da América do Sul e menor influência sobre o clima mundial.

Aquecimento do mar na costa já impacta o Peru

O El Niño Costeiro já afeta amplamente o Peru, com chuvas intensas, enchentes, deslizamentos e colapso de infraestrutura em diferentes regiões do país. O aquecimento anormal das águas do Pacífico próximo à costa elevou a evaporação e intensificou as precipitações, cenário que deve persistir nas próximas semanas.

Na região de Arequipa, os temporais são sucessivos. Pai e filho morreram arrastados por uma enxurrada em Cayma, elevando para quatro o número de mortos na atual temporada de chuvas na região.

El Niño Costeiro favorece chuva intensa em Arequipa

El Niño Costeiro favorece chuva intensa em Arequipa | JUAN SANTY/AFP/METSUL

No Norte, Piura enfrenta alagamentos severos. Em Chulucanas, ruas viraram rios e veículos foram arrastados. A cidade de Piura registrou avenidas completamente inundadas. Em Tumbes, o rio Tumbes permanece sob vigilância, com risco de transbordamento caso as chuvas se intensifiquem.

No Sul, o rio Ica transbordou no distrito de Ocucaje, na região de Ica, destruindo mais de 100 hectares de lavouras e bloqueando a Rodovia Panamericana após um deslizamento. Já em La Libertad, a queda de uma ponte isolou comunidades inteiras.

E quando começa o El Niño clássico?

A chegada do El Niño Costeiro aos litorais do Peru e do Equador não indica que já se instalou um episódio clássico de El Niño que afeta o clima no mundo inteiro. Este vai tardar alguns meses ainda para se caracterizar. No momento, o Pacífico Equatorial Centro-Leste segue em neutralidade.

Após o fim de um evento de La Niña, o Pacífico obrigatoriamente entra em fase de neutralidade, já que não há transição direta entre La Niña e El Niño sem um período neutro intermediário.

NOAA projeta probabilidade de El Niño no segundo semestre | NWS/NOAA

Neutralidade, porém, não significa normalidade: mesmo com o Pacífico Equatorial em condição neutra, podem ocorrer extremos típicos tanto de El Niño quanto de La Niña. As projeções indicam que essa neutralidade deve predominar neste fim do verão e início do outono, mas com tendência de aquecimento gradual das águas, primeiro na costa do Peru e do Equador e depois de forma mais ampla na faixa equatorial, favorecendo a instalação de um El Niño clássico entre o outono e o inverno.

Modelos climáticos apontam aumento progressivo da probabilidade de El Niño ao longo do inverno e da primavera, superando a neutralidade a partir da metade do outono. Neste momento, os dados indicam um El Niño moderado a forte no segundo semestre deste ano com pico no final de 2026 e no começo de 2027.

O que é El Niño

Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.

El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.

Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.

A origem do nome data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.

Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.

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