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Chuva extrema na Zona da Mata de Minas Gerais deixou mais de 20 mortos, outros 40 desaparecidos e mais de 400 pessoas desabrigadas. Os municípios mais atingidos na região foram Juiz de Fora e Ubá com alagamentos, inundações repentinas, deslizamentos de terra e desabamentos.

Chuva em Minas Gerais

Bombeiros e equipes de resgate trabalham na remoção de escombros após deslizamento provocado por chuva intensa no bairro Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora (MG), que deixou vítimas | PABLO PORCIUNCULA/AFP/METSUL

Quanto choveu? Dados de sensores indicam que a chuva foi extrema em Juiz de Fora. A rede do Centro Nacional de Desastres (Cemaden) indicou acumulados de 100 mm a 200 mm em vários pontos da cidade do Sul de Minas Gerais em 24 horas. O maior acumulado até o início da manhã desta terça se deu no pluviômetro de Nossa Senhora de Lourdes com 191 mm. Neste ponto de medição, a precipitação em apenas três horas passou de 100 mm no começo da madrugada desta terça. Em Ubá, a precipitação somou 162 mm, a maior parte em curto intervalo.

Por que choveu tanto? Uma massa de ar tropical quente e úmido cobria a Zona da Mata no momento da chuva extrema. No final da segunda (23) e no começo desta terça (24), ar mais frio em altitude avançou a partir do Oeste e encontrou o Sudeste de Minas Gerais, estimulando a formação de áreas de instabilidade com chuva localmente forte a intensa, que afetaram também o estado do Rio de Janeiro. Havia ainda uma pequena área de baixa pressão no Leste mineiro, favorecendo a instabilidade e que canalizava umidade do Espírito Santo para o Sudeste de Minas Gerais.

Chuva foi fora do normal? Sim, e muito. De acordo com a climatologia histórica de Juiz de Fora, pela série 1991-2020, a precipitação média do mês de fevereiro é de 170,3 mm, uma das mais altas do ano. A chuva, assim, na região de Juiz de Fora e Ubá em poucas horas somou a média histórica de todo o mês. Uma vez que dezembro a fevereiro é o pico da estação chuvosa na região, com médias altas mensais de precipitação, chover em poucas horas o que costuma chover no mês inteiro é uma precipitação extrema e fora do normal.

Por que a chuva extrema se concentrou em Juiz de Fora e Ubá? Episódios de chuva muito intensa nesta época do ano tendem a ser localizados no Sudeste do Brasil, despejando um grande volume de água em parte de uma cidade, em um município ou numa área limitada que pode afetar poucos municípios.

METSUL

A imagem de satélite da 0h desta terça (24) mostrava núcleos gerados por convecção exatamente na região atingida. A convecção é o nome dado ao processo natural em que o ar quente sobe e o ar frio desce na atmosfera. Quando o sol aquece o solo, o ar próximo à superfície também esquenta, fica mais leve e começa a subir. À medida que esse ar sobe, ele esfria e o vapor de água nele contido se condensa, formando nuvens que muitas vezes são carregadas e trazem chuva intensa e temporais isolados.

Relevo contribuiu para o desastre? O relevo de Juiz de Fora é predominantemente acidentado, típico da Zona da Mata mineira e da transição para a Serra da Mantiqueira. O município apresenta morros, colinas, encostas íngremes e vales. Esse relevo influencia a drenagem e favorece a ocorrência de enxurradas e deslizamentos. Já Ubá também tem relevo ondulado a montanhoso, porém com formas menos elevadas que Juiz de Fora. A cidade se desenvolveu no fundo de um vale, o que favoreceu a inundação repentina com a água atingindo grande altura nas ruas.

Risco de chuva extrema era possível de ser alertado? Plenamente. Modelos meteorológicos de alta resolução, como o WRF da MetSul Meteorologia, indicavam o elevado risco de precipitação localmente volumosa e excessiva na Zona da Mata de Minas Gerais durante o período em que se produziu o desastre.

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A simulação computadorizada de alta resolução da MetSul indicava vários núcleos com chuva acima de 100 mm e alguns com precipitação ainda mais volumosa em que os totais poderiam atingir marcas de 150 mm a 250 mm, incluindo a região de Juiz de Fora.

Houve influência das mudanças climáticas? A ciência já provou que o aquecimento do planeta aumenta os eventos extremos de chuva. O ar quente consegue reter mais vapor de água do que o ar frio. De acordo com a Lei de Clausius-Clapeyron, para cada 1°C de aumento na temperatura global, a atmosfera pode reter cerca de 7% a mais de umidade. Quando as tempestades se formam, elas têm estoque maior de água para “descarregar”. No entanto, episódios de chuva excessiva isolada são comuns ao longo da história no Sudeste do Brasil no verão e somente um estudo de atribuição poderá indicar correlação entre o eventos e mudanças no clima.

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