Cuba viveu uma madrugada histórica nesta terça (3) ao registrar a menor temperatura já observada no país desde o início das medições, um feito extraordinariamente raro em plena era do aquecimento global.

Um cubano agasalhado anda de bicicleta por uma rua de Havana nesta terça após amanhecer com 4ºC. Cuba registrou um recorde de temperatura mínima nacional de 0ºC na primeira vez que o ponto de congelamento foi documentado na ilha caribenha, segundo o Instituto de Meteorologia do país.| YAMIL LAGE/AFP/METSUL
A estação meteorológica de Indio Hatuey, no município de Perico, em Matanzas, marcou 0,0°C, atingindo pela primeira vez o ponto de congelamento em território cubano e estabelecendo um novo recorde nacional absoluto de temperatura mínima. O valor superou a marca anterior de 0,6°C, registrada em Bainoa (Mayabeque) em 18 de fevereiro de 1996.
Em um planeta que acumula sucessivos recordes nacionais de temperatura máxima por calor, a quebra de um recorde nacional de frio chama atenção pela raridade e pelo contraste com a tendência dominante de elevação das temperaturas médias globais.
A madrugada gelada foi consequência direta da forte influência de um sistema de altas pressões combinado com a entrada de uma massa de ar frio, que se espalhou por grande parte do território cubano depois de causar frio incomum no Sudeste dos Estados Unidos.
O padrão atmosférico favoreceu céu mais limpo, ventos fracos e intensa perda de calor durante a noite, criando condições ideais para o resfriamento extremo próximo à superfície.
Ao todo, 32 estações meteorológicas do Instituto de Meteorologia de Cuba registraram temperaturas iguais ou inferiores a 10 °C, um número expressivo para um país de clima tropical.
Em várias localidades do interior, os termômetros caíram para valores típicos de regiões subtropicais, evidenciando a intensidade do episódio de frio. Além do marco histórico, o frio extremo teve efeitos visíveis.
Em Indio Hatuey, a temperatura de 0°C provocou a formação de escarcha em folhas de diferentes cultivos da estação experimental, um fenômeno raríssimo em Cuba. A presença de gelo superficial reforçou o caráter excepcional do evento e trouxe preocupação pontual para o setor agrícola.
Outras estações também registraram valores muito baixos. Tapaste (Mayabeque) anotou 2,8°C, Aguada de Pasajeros (Cienfuegos) marcou 3,0°C e Güines (Mayabeque) teve 3,2°C. Em Bainoa, onde estava o antigo recorde nacional, a mínima chegou a 3,7°C, bem acima do novo extremo, mas ainda notável.
Na capital, o Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, registrou 4,4°C, valor incomum para uma área urbana costeira. Cidades do centro do país, como Sancti Spíritus e Santo Domingo, ficaram em torno de 5,4°C a 6,0°C, enquanto áreas serranas e do oriente também apresentaram frio significativo.
Em algumas localidades, o episódio resultou na quebra de recordes mensais de fevereiro. A cidade de Sancti Spíritus alcançou 6,0°C, Veguitas (Granma) registrou 7,3°C, Florida (Camagüey) chegou a 7,4°C e Palenque de Yateras (Guantánamo) marcou 8,0°C. Em Aguada de Pasajeros, os 3,0 °C representaram ainda um novo recorde absoluto da estação.
Eventos de frio intenso não contradizem o aquecimento global, mas ocorrem dentro de uma variabilidade natural cada vez mais marcada por extremos. Ainda assim, a ocorrência de um recorde nacional absoluto de mínima em um país tropical, em pleno século XXI, é considerada acontecimento meteorológico de grande relevância científica e histórica, incomum nos dias atuais.
