A dinâmica das águas do Oceano Pacífico equatorial é uma das engrenagens mais importantes do clima global e determinam ou não o surgimento do El Niño. Dois fenômenos, La Niña e El Niño, alteram profundamente a distribuição de calor no oceano e, com isso, influenciam chuvas, temperaturas e eventos extremos em várias partes do mundo. O que ocorre no outro lado do mundo, no Indo-Pacífico, acaba por influenciar o clima meses depois.

Mapa de Potencial de Aquecimento para Ciclones Tropicais mostra uma “piscina” de águas muito quentes no Pacífico Oeste e que vai fornecer a energia para o desenvolvimento de um potencial El Niño forte | AOML/NOAA
Vamos entender? No centro dessa grande engrenagem oceânica está uma “piscina” de águas quentes que se forma naturalmente no Pacífico ocidental, próxima à Austrália e à Indonésia. Durante episódios de La Niña, essa piscina de águas quentes se intensifica e se concentra ainda mais no lado oeste do Pacífico.
Isso acontece porque os ventos alísios, que sopram de leste para o oeste ao longo da faixa equatorial, ficam mais fortes do que o normal. Esses ventos empurram constantemente as águas superficiais mais quentes em direção à Ásia e à Oceania.
Como resultado, forma-se um verdadeiro “estoque” de calor na superfície do mar nessa região. As temperaturas da água ali ficam bem mais elevadas, e o nível do mar pode até ficar alguns centímetros mais alto devido ao acúmulo de água.
Neste momento, conforme dados da AOML/NOAA, há uma enorme piscina de águas mais quentes do que a média sobre o Pacifico oeste, perto da Indonésia, e que vai ser o estopim de um evento de El Niño nos próximos meses e possivelmente forte a intenso.
Essa diferença de temperatura entre o oeste quente e o leste frio é uma das marcas da La Niña. O contraste reforça ainda mais os ventos alísios, criando um ciclo que mantém essa configuração. É como se o sistema ficasse “travado” nesse padrão, com calor acumulado de um lado e águas frias dominando o outro.
Mas esse equilíbrio pode se romper. Em determinados momentos, os ventos alísios enfraquecem ou até mudam de direção temporariamente. Surgem então os chamados “estouros de vento de oeste”, rajadas que sopram no sentido contrário ao habitual.
Tais eventos são fundamentais para iniciar a transição rumo ao El Niño. Quando esses estouros de vento ocorrem, eles empurram parte da água quente acumulada no Pacífico ocidental de volta para o centro e o leste do oceano.
Esse deslocamento não acontece de forma desorganizada. Ele ocorre através de ondas oceânicas chamadas ondas de Kelvin, que se propagam ao longo da linha do Equador. As ondas de Kelvin funcionam como pulsos de energia que viajam rapidamente pelo oceano, levando consigo essa água mais quente.
Diferente das ondas comuns que vemos na praia, elas não são visíveis na superfície como cristas e vales. São alterações no nível do mar e na profundidade da camada quente que avançam silenciosamente de oeste para leste.
À medida que essas ondas se deslocam, elas aprofundam a termoclina, a camada que separa as águas quentes superficiais das águas frias profundas, no Pacífico central e oriental.
Com isso, a ressurgência de águas frias diminui, permitindo que a água quente domine regiões onde normalmente ela não está presente. Esse processo dá origem a uma “língua” de águas quentes que se estende ao longo do Pacífico equatorial, da costa da América do Sul até o centro do oceano.
Essa configuração é a principal característica de um evento de El Niño. O oceano, que antes tinha calor concentrado no oeste, passa a distribuir esse calor para leste. Com essa mudança, o padrão de circulação da atmosfera também se altera.

CPC/NOAA
Áreas que antes tinham muita chuva podem ficar mais secas, enquanto regiões normalmente áridas podem registrar precipitações acima da média. É por isso que El Niño e La Niña têm impactos tão amplos no clima global.
Em resumo, a La Niña funciona como um período de acúmulo de energia térmica no Pacífico ocidental, fortalecendo a piscina de águas quentes. Já o El Niño representa a redistribuição desse calor pelo oceano, impulsionada por ondas de Kelvin e mudanças nos ventos.
É um sistema dinâmico, em que o oceano e a atmosfera estão constantemente interagindo. Entender esse mecanismo ajuda a explicar por que o clima varia tanto de um ano para outro. E, embora esses fenômenos ocorram no Pacífico, seus efeitos são sentidos em todo o planeta, inclusive aqui no Brasil, onde podem influenciar de períodos de estiagem até episódios de chuva intensa com enchentes.