O vórtice polar do Ártico colapsou e está prestes a trazer grandes impactos em parte do planeta nas próximas semanas. É um fato que gera espanto entre os cientistas porque, embora o vórtice colapsar não seja incomum, é altamente incomum que ocorra tão cedo no período frio do ano no Hemisfério Norte e inédito em novembro. O único registro do fenômeno em novembro foi em 1958, mas não é confirmado porque não se trata de dado observado e sim uma reanálise de modelos de computador.

ECMWF
Com o colapso e o vórtice dividido em dois, um grande núcleo do vórtice polar do Ártico está prestes a avançar sobre a América do Norte, trazendo uma mudança brusca no tempo em grande parte dos Estados Unidos e do Sul do Canadá.
As projeções indicam que esse núcleo vai provocar queda acentuada da temperatura e episódios de neve em várias regiões nas próximas semanas. Embora o impacto mais direto seja na América do Norte, o fenômeno também tende a influenciar o clima em outras partes do Hemisfério Norte, ainda que de formas diferentes.
Para entender o que isso significa, é preciso saber como funciona o vórtice polar do Ártico. Ele é uma enorme circulação de ventos que gira sobre o Polo Norte durante o inverno e que se estende desde as camadas mais baixas da atmosfera até a estratosfera, a mais de 50 quilômetros de altura. É como um enorme redemoinho de ar gelado que, quando está forte, mantém o frio preso na região do Ártico e impede que massas de ar gelado avancem para latitudes mais baixas.
Quando o vórtice polar do Ártico está forte e bem organizado, o inverno costuma ser mais ameno em grande parte dos Estados Unidos, da Europa e de outras regiões de média latitude. Mas quando ele enfraquece, se deforma ou até se divide em partes, escapa pelas “bordas” e libera o ar extremamente frio que estava retido no círculo polar. É esse escape de ar gelado que cria ondas de frio intenso em lugares que normalmente não estariam tão frios.
O que está acontecendo agora é resultado de um episódio de aquecimento estratosférico. Esse fenômeno eleva rapidamente a temperatura e a pressão na estratosfera, o que tem um efeito direto de enfraquecer, distorcer e até quebrar o vórtice polar do Ártico.
As imagens e análises atmosféricas mostram um grande sistema de alta pressão invadindo a estratosfera e empurrando o vórtice polar do Ártico para fora de seu formato circular típico. A estrutura fica alongada e instável, um sinal claro de que o vórtice está sofrendo uma intensa perturbação. Quando isso acontece, a tendência é que parte dessa anomalia estratosférica vá descendo para níveis mais baixos da atmosfera e comece a influenciar o tempo na superfície.
Os dados mostram exatamente isso: uma forte pressão anômala na estratosfera está se propagando para níveis inferiores da atmosfera, rumo ao início de dezembro. Esse movimento de cima para baixo é o que indica que o impacto do vórtice polar do Ártico sobre o tempo deverá ser sentido na superfície em questão de dias.
Modelos de previsão já identificam que o vórtice polar do Ártico está se dividindo em dois núcleos na parte inferior da estratosfera. Um desses núcleos — o mais intenso — está sendo deslocado diretamente sobre a América do Norte. É esse núcleo que deverá atuar como uma “bomba” de ar polar, empurrando o frio do Ártico para dentro dos Estados Unidos e do Canadá.
As primeiras mudanças devem ser sentidas logo nos próximos dias, com invasões de ar frio especialmente sobre as planícies do Norte e o Meio-Oeste americanos. Essa massa de ar gelado tende a se espalhar para o sul e depois avançar para o leste, alcançando grande parte do território norte-americano.
À medida que o núcleo do vórtice polar do Ártico se instala mais firmemente sobre o continente, a atmosfera passa a favorecer um fluxo persistente de ar polar direto para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, áreas do Oeste norte-americano podem ter condições mais úmidas, enquanto o centro e o leste do país podem alternar entre períodos de neve, frio intenso e dias de instabilidade conforme a presença de umidade.
