O clima planeta pode enfrentar um novo salto de aquecimento global entre 2026 e 2027, impulsionado por um episódio de El Niño previsto para se formar no Oceano Pacífico. O alerta vem do climatologista James Hansen, cientista da NASA até 2013 e atual diretor de ciência climática da Universidade de Columbia, em Nova York, um dos cientistas mais respeitados do mundo quando o assunto é aquecimento global.

Novo salto na temperatura do planeta traria ainda mais extremos no clima como ondas de calor, secas, enchentes e incêndios florestais no segundo semestre de 2026 e em 2027 | VALERIE GACHE/AFP/METSUL
Segundo Hansen, a temperatura média global em 2025 ficou preliminarmente 1,47°C acima dos níveis do período pré-industrial (1880 a 1920). Esse valor faz de 2025 o segundo ano mais quente já registrado, perdendo apenas para 2024, que estabeleceu o recorde histórico. A diferença entre os dois anos é pequena, cerca de 0,1°C, mas suficiente para mostrar que o planeta segue em trajetória de aquecimento contínuo.
Mais preocupante ainda é a média dos últimos três anos. Entre 2023 e 2025, a temperatura global média ficou em 1,5°C acima do nível pré-industrial, exatamente o limite mais ambicioso estabelecido pelo Acordo de Paris para evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Para Hansen, esse dado indica que o aquecimento global não é mais uma ameaça distante, mas uma realidade presente.
O cientista lembra que, em março de 2024, ele e sua equipe já haviam previsto que o El Niño então em curso provocaria um aquecimento maior do que o observado em episódios anteriores do fenômeno. Na época, a projeção era de que a temperatura global atingisse pelo menos 1,6°C acima do período pré-industrial e que, mesmo após o fim do El Niño, o planeta não esfriasse muito, permanecendo em torno de 1,4°C.
Essa previsão se confirmou. Agora, com base em novos dados e modelos climáticos, Hansen afirma que a temperatura média global deve atingir um mínimo temporário em torno de 1,4°C no primeiro semestre de 2026 e partir daí a tendência será de uma nova elevação, impulsionada por um novo episódio de El Niño, que pode se desenvolver na segunda metade de 2026 e avançar por 2027.
Atualmente, o Oceano Pacífico tropical está sob influência da La Niña, fase fria do sistema conhecido como El Niño–Oscilação Sul (ENSO). Esse sistema é o principal responsável pelas variações naturais de temperatura de um ano para o outro no planeta. Durante o El Niño, as águas do Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o normal, o que costuma elevar a temperatura média global.
Embora a NOAA, agência climática dos Estados Unidos, adote uma postura cautelosa e indique apenas a possibilidade de uma transição para condições neutras no início de 2026, Hansen destaca que diversos modelos climáticos independentes apontam para a formação de um El Niño mais adiante, ainda em 2026. Para ele, os sinais nos oceanos e na atmosfera já sugerem essa mudança.
Com a chegada desse novo El Niño, James Hansen faz uma projeção alarmante de que a temperatura média global possa alcançar cerca de 1,7°C acima do nível pré-industrial em 2027, estabelecendo um novo recorde histórico com marca que somente era esperada para daqui a uma década ou mais.

JAMES HANSEN/UNIVERSIDADE DE COLUMBIA
O intervalo curto entre esse possível recorde e o último grande El Niño, ocorrido em 2023, chama a atenção dos cientistas. Em apenas quatro anos, o planeta pode ganhar mais 0,1°C de aquecimento estrutural, sem considerar a variabilidade natural.
Hansen afirma que isso é um sinal claro de que o aquecimento global está se acelerando. Segundo ele, a taxa atual de aumento da temperatura média global é de cerca de 0,31°C por década, um ritmo considerado muito alto.
Um dos fatores por trás dessa aceleração seria a mudança no efeito dos aerossóis — partículas presentes na atmosfera que, por décadas, ajudaram a mascarar parte do aquecimento ao refletir a luz solar. Com a redução dessas partículas em várias regiões do mundo, esse “freio” temporário ao aquecimento estaria desaparecendo.
O climatologista reconhece que fazer previsões envolve riscos, mas defende que esse exercício é essencial para o avanço da ciência. Para ele, testar hipóteses com base nos dados disponíveis permite melhorar modelos, corrigir erros e compreender melhor o funcionamento do sistema climático da Terra.
