Imagens de satélite do fim da tarde deste sábado (17) mostravam a formação de uma estrutura semelhante a um olho com um centro de circulação fechado de nuvens no ciclone que atua sobre o Oceano Atlântico, a Leste do Rio Grande do Sul.

Imagem de satélite do ciclone

METSUL

A imagem chama a atenção porque, embora ciclones sejam comuns nas latitudes perto do Rio Grande do Sul, é comum que nas imagens de satélite apareça o vórtice (espiral de nuvens) típica de ciclone, mas raramente a aparência de um olho.

O sistema no mar, embora não intenso, foi responsável pelo sábado de tempo ventoso em diversas cidades do Rio Grande do Sul, mas o campo de vento muito forte ficou sobre o mar e não alcançou terra no continente, como era previsto.

Estações meteorológicas registraram até o meio da tarde de hoje rajadas de vento de 76 km/h no Chuí; 67 km/h em Mostardas, 66 km/h em e São Lourenço do Sul, 61 km/h em e 53 km/h em Capão da Canoa, 59 k/h em Rio Grande, 57 km/h em Porto Alegre, 56 km/h em Tramandaí, 53 k/h em Rolante e 52 km/h em Campo Bom.

Como é comum em ciclones extratropicais com efeito no Rio Grande do Sul, o vento mais forte, em regra, sopra entre o meio da manhã e o começo da tarde, assim houve uma gradual diminuição do vento desde o meio da tarde.

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A previsão do tempo da MetSul Meteorologia indica que o ciclone neste domingo (18) deve se afastar do continente em uma trajetória para Leste, de forma que o vento no território gaúcho tende a soprar mais fraco amanhã, embora ainda siga ventoso junto à costa.

Por que a aparência de um olho?

A estrutura de um olho ou comparável pode se formar em três tipos de ciclones: tropical, subtropical e extratropical. São mais comuns nos sistemas de natureza tropical, por isso estamos acostumados a ver em furacões.

Embora o olho seja uma das características mais conhecidas dos furacões, ciclones extratropicais também podem apresentar um centro com aparência semelhante. Em imagens de satélite, sistemas extratropicais podem exibir região cercada por bandas de nebulosidade que formam um desenho circular.

Infográfico de ciclone

METSUL

A semelhança, porém, não significa que o ciclone tenha se transformado em um furacão. Uma das explicações para o fenômeno é a chamada seclusão quente. O processo ocorre quando uma porção de ar relativamente quente fica isolada perto do centro do ciclone, envolvida pela circulação do sistema e por ar mais frio ao redor.

A configuração pode surgir em fases avançadas de maturidade de ciclones extratropicais muito intensos, especialmente quando as frentes se curvam e envolvem o centro da baixa pressão. Outra possibilidade é a entrada de ar seco proveniente de níveis elevados da atmosfera.

Furacões (ciclones tropicais) são alimentados pelo calor e umidade do oceano enquanto ciclones extratropicais estão associados a frentes e contrastes de temperatura. Assim, a presença de um olho ou estrutura semelhante não significa, por si só, que um ciclone extratropical tenha se tornado tropical.

Mas tem uma segunda hipótese: ciclone assumiu características subtropicais

A estrutura chamativa nas imagens de satélite pode ter uma segunda explicação e muito plausível: que este ciclone na costa do Rio Grande do Sul não seja extratropical mais e tenha assumido características subtropicais.

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Aliás, os diagramas de fase da Universidade da Flórida mostram uma transição do centro deste sistema para uma fase quente, comum em ciclones subtropicais, fenômeno que não é incomum na costa brasileira, mas não é frequente como os ciclones extratropicais.

Diagrama de fase do ciclone

FSU

Ciclones subtropicais são sistemas de baixa pressão que combinam características de ciclones tropicais e extratropicais. Uma das diferenças entre eles está na temperatura do ar no centro, especialmente em diferentes altitudes da atmosfera.

Nos ciclones tropicais, raros na costa do Brasil, o centro apresenta um núcleo quente que se estende por boa parte da troposfera, devido principalmente ao calor liberado pela condensação do vapor d’água nas tempestades.

Nos ciclones extratropicais, os mais comuns no litoral brasileiro, o núcleo costuma ser frio em comparação com o ambiente, especialmente nos níveis superiores, porque esses sistemas estão associados a contrastes de temperatura e frentes atmosféricas. Em alguns casos, porém, podem desenvolver uma seclusão quente, com ar relativamente mais quente isolado perto do centro.

Já os ciclones subtropicais, pouco frequentes, apresentam estrutura térmica híbrida. Geralmente, apresentam características mais quentes nos níveis baixos e uma circulação mais fria em altitude. A combinação favorece organizações de nuvens e tempestades. Em determinadas condições, o ar seco pode reduzir a nebulosidade no centro, enquanto tempestades se organizam ao redor, formando uma estrutura semelhante a um olho.