Um ciclone que se formou no fim de semana na costa do Sudeste e migrou para Sul e Sudeste permanece quase estacionário por vários dias seguidos no Atlântico Sul na altura da costa brasileira em comportamento bastante incomum.
Os dados mostram o ciclone com pressão atmosférica central de 1004 hPa, logo está longe de ser um sistema intenso. No começo da semana, chegou a apresentar pressão de 997 hPa, quando era mais profundo.

Imagem de satélite mostra o ciclone na costa do Brasil na tarde do domingo (acima e à esquerda), na tarde de segunda-feira (acima e à direita), na tarde de terça-feira (abaixo e à esquerda) e na tarde da quarta-feira (abaixo e à direita) | ZOOM EARTH
Embora o comportamento incomum de estar quase estacionário por vários dias seguidos na mesma área, este sistema não representa qualquer risco para o território brasileiro e está longe da costa.
O seu efeito principal, pelo giro do centro de baixa pressão, é canalizar umidade que traz instabilidade para estados do Centro-Oeste e do Sudeste do Brasil, mas o seu campo de vento está em alto mar.
Atualmente, o vento em seu centro é fraco a moderado, mas no começo da semana as rajadas projetadas por modelos numéricos chegavam a mais de 100 km/h em mar aberto no Atlântico, longe da costa e sem oferecer risco ao continente.
Este ciclone gerou muito debate na comunidade meteorológica brasileira desde o fim de semana quanto à sua classificação. Diagramas de fase indicavam por ora um sistema de natureza subtropical e em outros momentos um sistema tropical, o que faria com que o ciclone fosse batizado com um nome, no caso Endy.
A Marinha do Brasil, a quem compete nomear no Atlântico Sul os sistemas atípicos (subtropicais ou tropicais), no entanto, em nenhum momento indicou que o ciclone era anômalo, entendendo que mantinha características extratropicais, o que é o comum na região.
Por que o comportamento do ciclone é incomum?
Normalmente, os ciclones que se formam nas latitudes médias, incluindo o litoral do Brasil, rapidamente se afastam. Na maioria das vezes para Leste e Sudeste e às vezes para o Sul.
Ocorre que este centro de baixa pressão atmosférica atuou por dias seguidos sobre o Atlântico Sul na mesma região – com pequenas oscilações diárias de posicionamento – em torno de 30ºS e 35ºW.

Mapa mostra a trajetória do ciclone dia a dia pelo modelo europeu | FSU
Por que este ciclone não conseguiu se afastar? A explicação está em um centro de alta pressão posicionado ao Sul e Sudeste do ciclone com pressão de até 1030 hPa, o que acabou bloqueando o deslocamento do sistema ciclônico.
Isso, contudo, está prestes a mudar. O avanço de uma frente fria e o enfraquecimento da baixa pressão devem fazer com que o ciclone se dissipe agora no final da semana no Atlântico Sul, encerrando sua jornada de vários dias seguidos na mesma região.
Entenda o que é ciclone extratropical, subtropical e tropical
A regra é que ciclones na costa brasileira sejam de natureza extratropical. Já os que apresentam características subtropicais ou tropicais são atípicos e ocorrem com muito menor frequência, sempre chamando a atenção quando se formam mesmo que não oferecem risco para terra firme.
Um ciclone extratropical, que é o comum em nossa região, se forma em latitudes médias e altas, associado a frentes frias e quentes, e é alimentado por diferenças de temperatura entre massas de ar frio e quente (gradiente térmico horizontal). Possui um núcleo frio, com temperatura central menor que nos arredores, com frentes meteorológicas bem definidas.
Já um sistema subtropical se forma em latitudes subtropicais, geralmente entre 20° e 40°, e sua alimentação é mista, combinando gradiente térmico horizontal com processos associados ao calor liberado pela condensação de vapor d’água. Ele apresenta uma estrutura intermediária, com características de ciclones tropicais e extratropicais, e um núcleo parcialmente quente ou quente em níveis altos da atmosfera.
Finalmente, um ciclone tropical é uma área de baixa pressão com centro quente de baixos a altos níveis da atmosfera. Forma-se sobre águas oceânicas quentes e organiza fortes chuvas e ventos em torno de um centro de circulação. Ele se alimenta do calor do mar, pode se intensificar e provocar temporais, mar agitado e alagamentos ao tocar terra, enfraquecendo depois sobre o continente ou águas mais frias.
O Brasil, diferentemente do que ocorre na Europa, não batiza com nomes ciclones extratropicais, que são comuns e recorrentes, mas apenas os atípicos (subtropicais ou tropicais). Se um sistema atípico apresentar vento sustentado acima de 60 km/h é classificado como tempestade e recebe nome. Já baixas pressões subtropicais ou tropicais com vento sustentado inferior a 60 km/h são uma mera depressão e não são batizadas com nomes.
