A passagem de um ciclone bomba, a tempestade batizada de Kristin, levou o governo a decretar situação de calamidade nas áreas mais afetadas de Portugal. A decisão foi tomada nesta quinta-feira pelo Conselho de Ministros, órgão que reúne o primeiro-ministro e os ministros do governo, após avaliação dos danos provocados pelo fenômeno meteorológico.

CAMARA MUNICIPAL DE LEIRIA
O anúncio foi feito pelo gabinete do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, chefe do governo de Portugal. Inicialmente, Montenegro havia afirmado que seria necessário avaliar a situação no terreno antes de tomar qualquer decisão, apesar dos pedidos feitos por prefeitos de municípios atingidos ainda na quarta-feira.
Com a confirmação da gravidade dos estragos, o Executivo decidiu avançar com a decretação da calamidade. Segundo nota oficial divulgada durante a reunião do Conselho de Ministros, a medida abrange as zonas mais afetadas pela tempestade Kristin.
O primeiro-ministro também cancelou viagens oficiais ao exterior e informou que visitará localidades dos distritos de Leiria e Coimbra. Um dos municípios mais atingidos foi Pombal, no distrito de Leiria.
A Câmara Municipal de Pombal, equivalente à prefeitura no Brasil, informou que quase todas as residências do concelho sofreram algum tipo de dano. De acordo com o governo local, os prejuízos se estendem pelas 17 freguesias do município, numa área de cerca de 626 quilômetros quadrados.
Em comunicado enviado à agência de notícias Lusa, a Câmara de Pombal afirmou que os levantamentos preliminares apontam para danos generalizados com incidência próxima da totalidade das moradias. Para a administração municipal, o impacto é de dimensão catastrófica e ultrapassa a capacidade financeira do município.
Além das casas, o município relata prejuízos significativos em unidades industriais consideradas estratégicas. Segundo a Câmara, os danos afetam setores relevantes da economia nacional, razão pela qual a situação é classificada como um problema que vai além do âmbito local.
A tempestade Kristin provocou também os mais graves danos já registrados na rede nacional de transporte de energia elétrica. A informação foi divulgada pela REN — Redes Energéticas Nacionais, empresa responsável pela gestão do Sistema Elétrico Nacional de Portugal.
Segundo a REN, o ciclone bomba derrubou 61 torres de alta tensão e danificou diversos outros. Ao todo, cerca de 774 quilômetros de linhas de muito alta tensão ficaram fora de operação, o que corresponde a aproximadamente 7% de toda a rede nacional de transporte de eletricidade.
Os danos ocorreram em dez linhas consideradas críticas, especialmente por ligarem as regiões Norte e Sul do país. Apesar da dimensão dos estragos, a REN informou que medidas preventivas e operações técnicas adotadas antes da chegada da tempestade evitaram falhas generalizadas no abastecimento de energia.
De acordo com a REN, os danos provocados pela Kristin superam todos os eventos anteriores. Até então, o episódio mais grave havia ocorrido em 2009, quando 25 torres de muito alta tensão foram derrubados — menos da metade do registrado agora.
Segundo a REN, a reposição total das torres e postes derrubados deve levar várias semanas. Para isso, todas as equipes disponíveis foram realocadas para os trabalhos considerados prioritários.
Do ponto de vista meteorológico, especialistas explicam que a tempestade Kristin apresentou características extremas. A depressão teve comportamento semelhante ao de um ciclone bomba, quando há uma intensificação muito rápida do sistema, e esteve associada ao fenômeno conhecido como “sting jet”, que provoca rajadas de vento extremamente violentas.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), órgão oficial de meteorologia de Portugal, registrou rajadas de vento de até 209 km/h na estação de Soure, no distrito de Coimbra, um dos valores mais elevados já observados no país.
