O Brasil agora tem ouro em Jogos Olímpicos de Inverno e nas redes sociais surge uma brincadeira para trazer para o Sul do país uma edição da competição internacional dos esportes de inverno na próxima década, embora o clima não seja de todo propício para uma Olimpíada e grandes nevadas sejam uma exceção e não a regra no inverno.

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Neste sábado (14), Lucas Pinheiro entrou para a história ao conquistar a primeira medalha do Brasil em Olimpíadas de Inverno. O brasileiro de 25 anos largou em primeiro no slalom gigante, em Bormio, e manteve a liderança do início ao fim com duas descidas quase perfeitas, mesmo sob neve persistente e temperatura de 3ºC. Com o tempo total de 2min25s00, terminou 0s58 à frente do suíço Marco Odermatt e garantiu um ouro inédito, eternizando seu nome como ídolo do esporte brasileiro.
Ao mesmo tempo, cresce nas redes sociais uma brincadeira que tem gente levando a sério, embora pouco factível: a realização dos jogos olímpicos de inverno em 2038 nas cidades catarinenses de Urupema e Urubici. Os adeptos da proposta já até elaboraram um logotipo para a campanha de cidades-sede.
O frio no Brasil é exceção em um país majoritariamente tropical, mas na Serra Catarinense ele é protagonista. É nessa região elevada de Santa Catarina que estão dois dos municípios mais frios do país: Urupema e Urubici.
No inverno, as paisagens ganham tons esbranquiçados com geadas intensas e, em anos favoráveis, até episódios de neve — fenômeno raro no Brasil, mas possível nas maiores altitudes da Serra Catarinense. Urupema, a cerca de 1.425 metros de altitude, é frequentemente citada como a cidade mais fria do Brasil.
No inverno, entre junho e agosto, a média térmica gira em torno de 10 °C, mas as madrugadas costumam registrar temperaturas negativas de forma recorrente. Em anos de massas de ar polar mais intensas, as mínimas podem cair para abaixo de -5 °C e, excepcionalmente, atingir marcas ainda menores.
A grande altitude favorece forte resfriamento radiativo, o que explica as geadas frequentes e, muitas vezes, severas. O destaque é o Morro das Antenas (ou Morro das Torres), com mais de 1.700 metros, onde o frio é ainda mais rigoroso e a vegetação pode amanhecer completamente congelada.
Já Urubici combina frio intenso com cenários de grande impacto visual. Com áreas acima de 1.800 metros de altitude, como no Morro da Igreja, o município registra mínimas negativas em praticamente todos os invernos. As médias de julho costumam ficar próximas de 9 °C a 11 °C, mas as madrugadas frias frequentemente têm marcas abaixo de zero.
Em situações de ar polar continental forte, associadas a umidade e instabilidade, há condição para precipitação invernal na Serra Catarinense. A neve, embora não seja um evento anual garantido, ocorre com alguma regularidade na região serrana . Ela depende da combinação de ar muito frio em altitude com disponibilidade de umidade.
Quando esses fatores se alinham, Urupema e Urubici podem registrar precipitação de neve fraca a moderada, geralmente nas áreas mais altas. Mesmo quando não há acumulação significativa, a simples ocorrência do fenômeno já atrai visitantes e mobiliza moradores. Mais comuns que a neve são episódios de chuva congelada, graupel ou geada intensa, que também deixam a paisagem esbranquiçada.
O episódio mais emblemático de neve ocorreu em 20 de julho de 1957, data da chamada “nevasca do século”, quando a região foi sepultada sob uma camada de gelo que variou entre 1,30 m e 1,50 m de altura. Por sete horas ininterruptas, o céu despejou flocos que paralisaram a vida urbana, soterraram veículos e exigiram que a Força Aérea Brasileira realizasse voos de emergência para lançar mantimentos e medicamentos a uma população completamente isolada em São Joaquim.
Esse evento histórico, documentado em registros do Museu Histórico de São Joaquim, transformou a percepção climática da região e estabeleceu um padrão de acumulação que nunca mais foi igualado em volume.
As décadas seguintes mantiveram a tradição gelada com ciclos de forte intensidade. Nos anos de 1965, 1975 e 1990, o Planalto Sul voltou a registrar acúmulos significativos que, embora menores que o recorde de 1957, foram suficientes para interromper o tráfego em rodovias sinuosas como a Serra do Rio do Rastro.
Em julho de 2013, o estado viveu outro marco, desta vez pela abrangência territorial: a neve caiu em mais de 120 municípios catarinenses, transformando o Morro da Igreja e o Vale do Caminhos da Neve em paisagens que remetiam aos Alpes europeus.
