O fortalecimento do El Niño representa um risco adicional para a economia da América Latina, com possíveis impactos sobre a produção agrícola, a geração de energia, a inflação e o crescimento econômico.A avaliação consta de um relatório do Banco Mundial, que aponta a possibilidade de efeitos desiguais entre os países da região, dependendo da exposição a secas prolongadas, chuvas excessivas e eventos climáticos extremos.

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Neste momento, conforme dados da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), as anomalias de temperatura da superfície do mar já superam +3ºC no Oceano Pacífico Equatorial Centro-Leste, o que jamais foi observado nos tempos modernos.
De acordo com todas as projeções dos modelos de clima, o fenômeno deve seguir se intensificando ao longo desta primavera com tendência de pico no final do ano, entre os meses de novembro e dezembro.
O relatório destaca que o El Niño acrescenta riscos negativos às perspectivas econômicas da América Latina e do Caribe (ALC), em um cenário internacional marcado por incertezas financeiras, demanda externa moderada e pressões inflacionárias.
Os impactos econômicos do fenômeno dependem da distribuição regional das anomalias de precipitação. Enquanto algumas economias podem enfrentar secas e perdas na produção, outras podem sofrer com chuvas excessivas e inundações.
Em determinados casos, países exportadores de commodities podem se beneficiar temporariamente da elevação dos preços de alguns produtos. Economias dependentes de atividades agrícolas sensíveis às condições climáticas podem enfrentar pressões sobre o crescimento e as contas externas.
Dependência hidrelétrica amplia os riscos do El Niño
O relatório destaca que a estrutura da matriz energética latino-americana aumenta a vulnerabilidade da região aos efeitos do El Niño. A energia hidrelétrica representa quase metade da geração total de eletricidade da América Latina, tornando a disponibilidade de água um fator importante para a segurança do abastecimento.
Secas prolongadas, especialmente em partes do Norte da América do Sul, na região andina e na América Central, podem comprometer a capacidade de geração das usinas hidrelétricas.
O Banco Mundial cita os episódios de 1997-1998 e 2015-2016 como precedentes históricos nos quais déficits hidrológicos locais reduziram significativamente a produção de energia.
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Quando a geração hidrelétrica diminui, os sistemas elétricos podem precisar substituir parte da eletricidade indisponível por geração termelétrica, geralmente mais cara e, em determinados casos, dependente de combustíveis fósseis importados.
A substituição pode elevar os custos de fornecimento de energia e ampliar as pressões sobre as contas públicas, especialmente quando os governos precisam recorrer a subsídios para administrar os efeitos do encarecimento da eletricidade. O problema, contudo, não se limita às regiões afetadas pela seca.
O relatório ressalta que áreas submetidas a precipitações excessivas também enfrentam riscos econômicos relevantes. Enchentes podem interromper redes de transmissão de energia, danificar infraestruturas críticas de distribuição e exigir descargas emergenciais de reservatórios, com possibilidade de inundação de terras produtivas.
Assim, tanto os déficits de chuva quanto os episódios de precipitação excessiva podem gerar prejuízos à infraestrutura energética e aumentar os custos públicos de recuperação.
Agricultura e segurança alimentar sob pressão
O Banco Mundial também identifica riscos significativos para a produção agrícola, a segurança alimentar e a dinâmica inflacionária em diferentes partes da América Latina.
Os dados históricos indicam que condições de seca associadas ao El Niño podem reduzir a produtividade de culturas sensíveis ao clima, especialmente em países andinos e no Corredor Seco da América Central.
Em outras regiões, as chuvas excessivas podem danificar as lavouras, interromper redes de transporte rural e dificultar o acesso aos mercados. O relatório ressalta que a distribuição geográfica precisa dos impactos permanece incerta. Por isso, a intensidade das perdas dependerá das condições efetivamente registradas em cada região e da exposição das atividades produtivas às alterações climáticas.
Os prejuízos agrícolas podem se propagar para além das propriedades rurais. Interrupções nas cadeias de abastecimento e aumentos nos custos de transporte podem elevar os preços internos dos alimentos, mesmo quando os problemas iniciais estão concentrados em determinadas áreas produtoras.
A alta dos preços tende a afetar de forma mais intensa as famílias de baixa renda, que destinam uma parcela maior de seus gastos à alimentação. Com o encarecimento dos alimentos, esses consumidores perdem poder de compra, enquanto as perdas de produção podem ampliar a insegurança alimentar e a malnutrição.
De acordo com o documento, mesmo reduções moderadas da produção relacionadas ao clima podem provocar consequências desproporcionais para a segurança alimentar em áreas já vulneráveis. Os efeitos podem se prolongar no tempo, com consequências para a acumulação de capital humano.
Pressão sobre as contas públicas e a inflação
Para o Banco Mundial, os impactos do El Niño podem criar dificuldades adicionais para a gestão macroeconômica dos países latino-americanos. O relatório destaca que os prejuízos à infraestrutura, os custos de recuperação e a necessidade de apoio às famílias podem aumentar as despesas governamentais.
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Ao mesmo tempo, a redução da produção agrícola e os problemas de abastecimento podem pressionar os preços dos alimentos, enquanto dificuldades na geração de energia podem elevar os custos energéticos.
Tais fatores podem atuar simultaneamente sobre a inflação e os custos de produção industrial. O encarecimento da energia e dos alimentos, combinado com problemas logísticos, pode reduzir o poder de compra das famílias e aumentar os custos enfrentados pelas empresas. Os governos precisam, nesse cenário, equilibrar os objetivos de estabilização econômica com as crescentes necessidades de proteção social e recuperação da infraestrutura.
O Banco Mundial ressalta que as pressões podem dificultar a gestão fiscal, especialmente em economias expostas a perdas produtivas e a danos causados por eventos climáticos extremos.
Os efeitos também podem alcançar as contas externas. Países dependentes da produção agrícola podem enfrentar reduções nas receitas de exportação quando as condições climáticas prejudicam as safras. Em contrapartida, a elevação dos preços de determinadas commodities pode beneficiar temporariamente outras economias, dependendo de sua posição nos mercados internacionais.
El Niño adiciona riscos a um cenário internacional incerto
O relatório situa os riscos climáticos em um ambiente externo complexo para a América Latina e o Caribe. Embora as condições financeiras globais tenham se flexibilizado em relação a meados de 2025, a trajetória futura permanece incerta.
As pressões inflacionárias decorrentes do aumento e da maior volatilidade dos preços da energia levaram alguns dos principais bancos centrais do mundo a endurecer sua política monetária.
O relatório enfatiza que a demanda externa continua moderada e as incertezas relacionadas às políticas comerciais permanecem como um obstáculo ao desempenho econômico global. Nesse contexto, o El Niño acrescenta riscos negativos às perspectivas da região.
Secas em determinadas áreas e inundações em outras podem comprometer a produção, elevar os custos e ampliar as pressões sobre os preços. O Banco Mundial identifica Argentina, Paraguai e Equador entre os países que potencialmente podem enfrentar os maiores impactos econômicos do fenômeno.
A avaliação considera os riscos associados às condições climáticas e às vulnerabilidades econômicas regionais, sem indicar que os efeitos serão idênticos entre os países. A conclusão do relatório é que a evolução do El Niño representa uma fonte adicional de incerteza para a América Latina e o Caribe.