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No dia 10 de fevereiro, Porto Alegre foi atingida por um evento de chuva extrema. Partes da cidade enfrentaram os maiores alagamentos em anos. Houve precipitação de 62 mm em apenas meia hora em alguns pontos. O volume de chuva na cidade, contudo, variou de 6 mm a 70 mm na hora do temporal. A MetSul, à época, tinha alertado três dias antes de chuva intensa com altos volumes em curtos períodos, alagamentos, etc. Na sequência do evento extremo de chuva, o jornal Zero Hora publicou matéria em que destacou o acerto da previsão feita, mas cobrou “precisão”, ou seja, o quanto choveria. Diante da matéria, publiquei artigo aqui no site da MetSul (leia) em que sustentei ser absurda exigir-se da Meteorologia precisão em se tratando de evento extremo de chuva de microescala e por demais localizado. Afirmei que nenhum serviço de Meteorologia do mundo conseguiria prever a quantidade exata de chuva que cairia e em quais bairros de Porto Alegre. Nem a Meteorologia dos Estados Unidos, considerada (corretamente) a melhor do planeta por todos os seus recursos e capacitação técnica.

Não foi necessário um mês para que viesse dos Estados Unidos um “case” que reafirma, na prática, o que defendi em artigo no mês passado. A reprodução acima é de manchetes que saíram em jornais, portais de internet e blogs de meteorologistas de canais de televisão. Referência a uma forte tempestade de neve que atingiria a capital americana e que não ocorreu. As previsões locais chegavam a mencionar mais de 30 centímetros de acumulação. Deu zero no coração da cidade ! O interessante veio em texto assinado por meteorologistas do jornal Washington Post. Reproduzo abaixo alguns pontos, de tradução livre, mas fiel ao que foi escrito pelos colegas dos Estados Unidos.


“Como a maior parte das pessoas tem consciência, previsão do tempo não é ciência exata. Em algumas circunstâncias, que se apresentam com frequência na área de Washington, um erro de previsão de meio ou um grau Celsius pode ser a diferença entre solo seco e uma nevada que paralisa a cidade”.

“Usamos modelos de computadores, programas complicados com milhões de dados e que processam milhares de equações matemáticas. Estes modelos são geralmente muito precisos e levaram a incríveis avanços na previsão nas últimas décadas. Mas, por certos problemas, estes modelos têm suas limitações. Decifrar exatamente a linha entre chuva e neve é um destes problemas”.

“O modelo Europeu, que é o mais preciso (em regra, mas não sempre, com acerto que varia de tempestade para tempestade”) sugeria que a temperatura em altura seria baixa o suficiente para a neve, mas que perto do solo os flocos derreteriam. Além disso, indicava metade da precipitação que era sugerida por outros modelos. Uma grande nevada em Washington exige não apenas ar frio, mas também significativa precipitação. Se um destes imgredientes faltar, a nevasca terá prpblemas. Se os dois faltarem, é “game over”.  

“Mas, meteorologistas, inclusive nós, o Serviço Nacional de Meteorologia, e os da mídia foram influenciados por outros modelos, alguns que indicavam dezenas de centímetros de neve na cidade. Vimos prognósticos de 15 a 25 centímetros – como solução de compromisso entre os modelos”.

“Alguns críticos levantaram a questão: por que os meteorologistas se baseiam tanto nos modelos ? Eles afirmam que no dia anterior à tempestade que não ocorreu a temperatura era de quase 10ºC e que estávamos prevendo neve com temperatura positiva. Estes são argumento legítimos e, acredite, a maioria dos meteorologistas os leva em conta. Mas também fomos capazes de prever nevascas no passado com forte precipitação de neve sob as mesmas circunstâncias de temperatura positiva. Se a precipitação é suficientemente forte, a taxa com que ela cai pode sobrepujar a temperatura mais alta junto ao solo

“Diante de problemas com a modelagem numérica assim como razões intuitivas para ser cético da neve, o erro mais critico nosso e de todo meteorologista nesta região foi a falha em comunicar ao público a incerteza que cercava o prognóstico. Nós diminuímos o nível de certeza na véspera, um grave erro de comunicação. Nossas manchetes, por exemplo, enfatizavam a confiança na concretização da neve. Comunicação de incerteza na previsão é algo que toda a comunidade deve aprimorar. Consumidores de informação meteorológica (leia-se o público) também deve aceitar que previsões do tempo não são perfeitas e que haverá casos em que nós não poderemos, com alta confiabilidade, predizer a quantidade de neve que cairá no seu quintal”.  


Devido à previsão da tempestade de neve, escolas foram fechadas na capital Americana e o serviço público deixou de funcionar com o fechamento de várias repartições. Pela sua conta no Twitter, o meteorologista do Canal 7 de Washington (afiliada da rede ABC) Bob Ryan chegou a escrever: “Se qualquer escola na área ficar aberta amanhã, alguém é doido”. Treze horas depois, Ryan se retratou: “O sol forte de março e o solo quente de ontem tiveram impacto na neve. Linha exata entre chuva e neve nos deixa doidos”. Mas já era tarde. A cidade já estava parcialmente paralisada, não por uma tempestade, mas pela previsão da tempestade. Chegou a nevar, é verdade, porém não com a força prevista e sem a acumulação alertada.

O caso de Washington é exemplo claro para situações recorrentes no Rio Grande do Sul. Primeira, não é possível predizer com grande antecedência qual cidade exata vai ser atingida por uma tempestade, o que somente é possível, em regra, em alerta de curto prazo. Segunda, prever exato volume de chuva (como informam muitos sites) para uma cidade é sempre uma temeridade porque os modelos são falhos e a precipitação bastante variável de um ponto para outro. Terceiro, o caso evidencia como prever neve é difícil, o que é ainda mais grave aqui no Rio Grande do Sul, onde o fenômeno quase sempre se dá numa situação limite. Serve de alerta para nós da Meteorologista e, principalmente, para a imprensa que previsão de neve no nosso Estado não deve ser comunicada ao público em textos ou manchetes sem as cautelas de incerteza inerente ao prognóstico, sobretudo para cidades turísticas como Gramado ou Canela, onde a neve é ainda menos recorrente que em outros municípios como São Francisco de Paula. Cambará do Sul e Bom Jesus.

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